Era mais uma noite comum de Dezembro, pouco mais de 19h e o céu ainda estava claro, como era comum nos meses com horário de verão. A rua estava vazia, como era de costume naquele bairro. Eu mal havia saído de casa, descendo para o bar, onde assistiria a um show, quando escutei uma voz que soava um tanto familiar:

— “Eu já te vi por aqui antes, moço?”

Quando me viro, deparo com a silhueta de uma moça, talvez nos seus 20 anos. Tento ver seu rosto, porém não consigo.

— “Você também estava indo ver o show?” - Prontamente ela me pergunta.
— “S-s-sim.” - Respondo um pouco envergonhado.
— “Então vamos!”

Ela me puxa e, juntos, acabamos descendo para o show. Esta é minha última memória. Em seguida, acordo em minha cama. Olho no relógio, era algo em torno de 21h. Saio para a cozinha e encontro minha família jantando. Na mesa, junto deles, uma moça. Seria ela? Seria tudo isto um sonho? Onde estou?

Olho para a rua, pela janela, porém tudo está diferente, nenhum show, nenhum sinal de pessoas na rua e, aparentemente, nem mesmo em casa, pois quando volto meu olhar para dentro não encontro mais ninguém. Seria tudo isto um sonho??

BEEP! BEEP! BEEP!

Levanto assustado, procurando meu celular. Eram pouco mais de 8h30 e pelo visto eu havia perdido os primeiros alarmes do dia, juntamente da primeira aula. Me visto para a faculdade, tentando me esquecer dos sonhos bizarros da noite anterior, porém, ao tomar café, encontro uma mensagem deixada sobre a mesa: “Parece que realmente nos conhecemos muito bem, não é mesmo?”

— “Quem é você?” - Pergunto a mim mesmo, mesmo sem esperar resposta.

Guardo minhas coisas, vou para a faculdade. Apenas um dia normal e entediante. Durante o primeiro intervalo, encontro alguns membros do clube estudantil, que já me fazem um convite.

— “Hey, gostaria de participar de nossa noite de pizza? Iremos comemorar o aniversário de nosso clube!”
— “Claro! Onde vai ser?” - Respondo, já animado com a ideia
— “Perfeito! Iremos nos encontrar hoje à noite, no Bar Alemão que fica no píer, aquele próximo da Matriz, às 20h.”
— “Estarei lá!”

Volto para a aula, almoço no restaurante logo ao lado da faculdade e pego meu ônibus para o trabalho. Chegando lá, encontro outro recado, em cima de meu teclado: “Me encontre no mirante do parque, às 18h. Saberá quem sou eu.”

Por dentro, sinto uma certa preocupação, afinal, quem estaria mandando aquelas cartas? Como teriam acesso à minha casa e meu escritório? Seria uma peça? Havia apenas uma forma de descobrir, que era indo pessoalmente no local e horário marcados no bilhete, que deixo guardado no bolso, junto do bilhete anterior.

Outros pensamentos relacionados ao bilhete passavam por minha cabeça, quando vejo que criaram um grupo sobre a festa no WhatsApp. Além de mim ali estavam Ana, Alana, Erick, Fábio, Jorge, Pedro, Tailya e Wesley. Não pude acompanhar toda conversa, porém pude participar da lista de sabores que planejavam encomendar para a noite de pizza e, quando percebo, já eram 17h45.

— “Será que eu devia ir ao parque e resolver isto de uma vez por todas?” - Penso comigo mesmo por alguns instantes, ponderando entre o bilhete ou ir para casa mais cedo, para me arrumar….
Parque e Jardim Botânico Prefeito Carroll Meneghel

É, parece que no final eu decidi ir mesmo ao parque e resolver tudo aquilo. Ainda não acreditava que estava ali, mas não havia muito tempo para pensar nisso agora. Sigo até o mirante do parque e sento num dos bancos dali, enquanto assisto o Sol ameaçando se pôr.

— “Talvez era apenas um trote… Ou minha imaginação…” - Pensava comigo mesmo.

Neste instante, sinto alguém se sentando ao meu lado e segurando minha mão esquerda.

— “Você não se lembra mesmo de mim né?” - Escuto uma voz, a mesma voz do sonho.
— “Talvez não devesse mesmo se lembrar, já faz tanto tempo… Mas vamos tentar nos conhecer outra vez, quem sabe desta vez funcione.”

Olho para o lado, era a moça do sonho, aquela que estava jantando em minha casa. Não entendo nada, apenas concordo. Passamos cerca de uma hora ali, sentados, assistindo ao entardecer e falando sobre diversos assuntos, nossas famílias, hobbies, ciência, astros e afins. Descubro que ela era realmente apaixonada por fotografia, após ela mostrar sua coleção de fotos polaroid, tiradas em diversos lugares da cidade. Por volta das 19h, me lembro da festa e me despeço, porém ela decide me acompanhar por alguns quarteirões. Eu morava ali e ela, aparentemente, também morava.

Paramos em frente a um casarão, um tanto antigo, com paredes altas e de tijolos, que ocupava uma grande parte do quarteirão, onde ela sugere tirarmos uma selfie. Meu celular naquelas horas já havia descarregado, porém ela pega sua Polaroid SX-70, nos enquadra de forma meio improvisada e bate uma foto. Nos olhamos, enquanto a foto se revelava ali na nossa frente e, por um instante o mundo todo parecia ter congelado, eu podia ver aqueles olhos castanho-claros e aqueles cabelos escuros, finalmente, sem medo ou dúvida. Ela era real, e não apenas um fruto dos meus sonhos. Neste instante, ela me olha e diz apenas uma palavra, ou melhor, um nome. O seu nome:

— “Tailya.”

Depois disso, no tempo de um piscar de olhos, ela se vai, desaparece. Fico um pouco ali, porém já sigo para casa. Já era tarde e eu ainda precisava me arrumar. Chegando na festa, todos temos uma noite agradável, com muita pizza e muita bebida, como era de costume com o pessoal da faculdade. Em meio a conversas, piadas e causos, escuto algo familiar:

— “Tailya adoraria estar aqui hoje!” - Diz Alana, com um tom nostálgico
— “Nossa! Nem me fale! Ela contaria muitas histórias e causos!” - Comenta Pedro
— “Desculpem, quem é Tailya?” - Interrompo, enquanto ambos bebem mais um gole de cerveja
— “Ah, você não conhece! É uma moça que se formou ano passado. Ela adorava falar sobre a vida e seus contos!”

Por alguns instantes, tento me lembrar da moça que havia conhecido mais cedo. Seria ela? O nome era o mesmo, os assuntos também, não poderia ser mera coincidência!

— “Por acaso ela não teria olhos castanhos claros, cabelos escuros e vivia falando sobre teorias loucas sobre o espaço?” - Pergunto, um tanto curioso
— “É ela mesma! Você conheceu?” - Me pergunta Ana
— “Trombei com ela ontem à noite no bar e hoje mais cedo, no parque! Super gente boa!” - Confirmo

Neste instante todos ficam em silêncio, me encarando, assustados. Nos olhos de alguns, percebe-se lágrimas escorrendo. Ana interrompe o silêncio, com uma voz de choro:

— “Tailya não está mais entre nós. Ela faleceu ano passado, em um acidente em sua viagem de formatura. Enquanto todos tinham ido para um resort na praia, Tailya passou alguns dias em uma cabana, nas montanhas, numa propriedade da família, quando foi pega de surpresa por uma tempestade e um deslizamento de terra. Nunca a encontraram.”

Um arrepio tomou conta de todo meu corpo. Não podia ser verdade isto, e as cartas? E o que havia acontecido no parque? Eu não podia estar louco. Coloco a mão no bolso, procurando os bilhetes, e encontro apenas dois pedaços de papel, em branco. Neste instante lágrimas tomam conta do meu rosto. Aquilo não podia ter acontecido. Quem era aquela pessoa que eu havia acabado de conhecer horas antes?

Fico mais algum tempo na festa e volto para casa, triste e confuso. Abro o Facebook e encontro Tailya nas sugestões de amizade. Entre as postagens, encontro fotos do píer, do casarão, do mirante e do entardecer, me pergunto qual seria nossa ligação, como aquilo poderia estar acontecendo, afinal de contas? Acabo dormindo com o celular na mão.

Na manhã seguinte, levanto, tento entender tudo que havia acontecido e acredito que tenha sido apenas um sonho. Meu celular ainda estava descarregado e logo eu estaria atrasado para a faculdade, então já o coloco para carregar, enquanto me arrumo e preparo o café. O celular liga, as mensagens e notificações começam a chover na tela, quando vejo uma em especial.

Era Tailya, ou, ao menos, seu número do WhatsApp, enviando uma imagem. Quando abro e vejo a foto, meu corpo começa a tremer e meus olhos se enchem de lágrimas. Era nossa foto, tirada no dia anterior, com sua Polaroid. Logo abaixo, um pequeno recado: “Eu ainda sei que nos conhecemos de algum lugar. Voltei para tentar descobrir, mas acabei te conhecendo novamente, adorei fazer isso! Sempre estarei com você. Tailya.”

Ela estava online, porém no instante que comecei a digitar uma mensagem, seu status voltou para “Visto pela última vez em 21 de Dezembro de 2017”, mesma data de sua viagem de formatura. Tentei mandar mesmo assim, porém de nada adiantou. Nunca chegou, apenas foi enviada. Perdida em algum vácuo ou servidor por aí. Decidi que não adiantaria mais insistir, que provavelmente era alguma loucura da minha cabeça, e segui em frente.

Três semestres se passaram e eu estava cada vez mais próximo de minha formatura, quando um dia, sentado no píer, observando o mar e as ondas, percebo alguém se sentando do meu lado. Não consigo ver seu rosto, pois o vento fazia seus longos cabelos escuros cobrí-lo, porém por uma fração de segundo vi seus olhos castanho-claros, me encarando como alguém algum dia já havia feito.

— “Parece que dessa vez nós já nos conhecemos de verdade, não é mesmo?” - Ela me diz, puxando meu braço e colocando uma foto antiga em minhas mãos. Uma foto minha e de…
— “Prazer, meu nome é Tailya.”