Crônica: A Noite dos Mil e Um Gritos

Eram quase 20h e as ruas estavam vazias.

"Droga, eu devia ter pego o ônibus." — pensava comigo mesmo, enquanto passava por baixo da linha de trem que dividia meu bairro do resto da cidade, estranhando o silêncio que me cercava.

Os únicos sons que se escutavam ali era das folhas, que balançavam juntos das árvores ao vento. Uma sensação terrível me consumia, de dentro para fora.
Já havia tentado usar o celular para ligar para casa. Sem sucesso, tentei ao menos usá-lo como lanterna para poder ver melhor o ambiente, mas a bateria havia descarregado, deixando-me solitário e dependente da luz dos poucos postes que ainda permaneciam acesos naquela noite.

Por um momento, talvez por cansaço, olho para trás enquanto paro para descansar e vejo o que parece ser um homem, andando lentamente em minha direção, no fim da rua escura. Percebo que há algo de errado quando o mesmo começa a me seguir, ainda que lentamente e à distância.
De imediato já corto por uma das várias vielas que cortam o bairro, desesperadamente, antes que possam descobrir qual rumo tomei ao sair da mesma. Na viela, percebo o quão estrelado o céu estava aquela noite, em parte pelo fato de não haver lâmpada alguma acesa, em parte pela Lua estar coberta por uma pequena nuvem, talvez a única no céu naquele momento.

Chego em outra rua, olho para trás. Ninguém. Estava livre.

Nesta altura faltavam apenas 300 metros até minha casa e já podia me imaginar deitando na cama e descansando, depois de um longo dia de trabalho.

Ao chegar no meio do quarteirão, vejo a silhueta de uma pessoa, aparentemente correndo de algo, que descia a rua que estava logo à minha frente. Não fui notado. Nem pela pessoa, nem por quem a perseguia.
Olho para o relógio, já eram 20:03 e decido apertar o passo nesses últimos metros, para chegar o quanto antes em casa.

"Finalmente, o lar..." — digo, quase sussurrando, ao virar a esquina da minha rua. Neste momento, percebo que algo muito errado estava para acontecer.

Escuto um barulho, à distância, que de princípio parecia ser o som de algum pássaro, mas que logo se assemelha a um grito.
Em seguida, passos. Não consigo dizer ao certo de onde estavam vindo, mas tenho certeza de que não eram da rua, pareciam estar acima, bem mais acima.
Um gelo sobe por toda minha espinha.

Já deviam estar faltando apenas 20 metros para chegar em casa quando olho para trás. Vejo a figura de um homem parar no meio da rua e se voltar para mim. Neste momento, a luz da Lua o atinge, me aterrorizando: algo de tom vermelho brilhante o cobria, da cabeça aos pés.

Corro para minha casa, entro e tranco o portão. Logo em seguida, escuto barulhos no lado de fora. Primeiro de algo andando na calçada, onde aparentemente não havia ninguém, com uma breve pausa seguida de um som extremamente alto vindo do telhado de metal e de mais alguns passos.

Um cheiro forte toma conta do lugar, por baixo do portão vejo o líquido vermelho que cobria a criatura formando uma poça. Era sangue.

Entro para a cozinha, tranco a porta. Escuto um grito quase que ensurdecedor, diferente de qualquer outro animal que eu conhecesse.

Ao olhar para fora, pela janela toda embaçada, vejo apenas um vulto em meio à escuridão, de dois olhos vermelhos refletindo a luz da Lua.

Não encontro ninguém em casa. Ainda assustado, tranco-me em uma das salas até que não escuto mais ruídos de passos do lado de fora.

Escuto outro grito ensurdecedor, logo seguido de outros, porém mais distantes. Passam-se alguns minutos e o silêncio enfim reina do lado de fora, conforme o dia amanhece.

Matheus Pratta

Matheus Pratta

Desenvolvedor web que ama design, fotografia e cinema. Atualmente morando em algum lugar entre São Paulo e Minas Gerais. 🍃🌄

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